
Imagine que você é um pobre vendedor ambulante situado no meio de um grande império do séc. I d.C. É noite e você está exausto depois de tanto trabalhar. Olhando ao seu redor, nada de extraordinário vê, apenas três homens vindo em sua direção. Trata-se de alguém de traje vermelho que deve ter seus trinta anos e está acompanhado de um senhor com idade um pouco avançada e um outro homem com aparência de soldado. O homem de vermelho aproxima-se de você com um olhar penetrante e diz-lhe que está a fim de comer dez uvas verdes. Esforçando-se inutilmente para não parecer ignorante, você responde que cada mercadoria sua tem um preço, e só restam nove uvas. O homem fala, como um ultimato, que quer dez uvas verdes. O tom arrogante dele o deixa muito irritado, mais ainda por não compreender por que aquele sujeito aparece àquela hora da noite fazendo exigências. Finalmente você diz que não pode fazer nada, pois só tem nove uvas. Ele lança um olhar determinante para o homem ao seu lado que retorna: que fim devo dar a este verme meu imperador? E só de ouvir a palavra imperador, você começa a suar frio e tremer dos pés a cabeça numa situação de desespero total, até que rapidamente desmaia. Pelo menos assim, você foi poupado de sentir o cara lhe espancando, até a morte.
A situação que acabei de narrar, pode parecer absurda, mas seria perfeitamente plausível se tivesse se referindo a uma noite na antiga Roma na qual Nero, Sêneca e um soldado passeiam nas ruas. Não só seria plausível como provavelmente representaria um entre incontáveis outros abusos cometidos pelo imperador. Para se ter uma idéia, tamanha era sua impopularidade que, quando Roma foi arrasada por um incêndio em 64 d.C., a responsabilidade foi automaticamente atribuída a Nero, que por sua vez a atribuiu aos cristãos, aumentando consideravelmente as hostilidades para com estes. Por mais incrível que pareça, após contemplar a “beleza das chamas”, como se referiu, Nero encarou a situação caótica da cidade destruída como uma grata oportunidade de reerguer um império verdadeiramente forte, espirituoso, onde suas pretensões artísticas estariam em evidência.
Seu fiel conselheiro Sêneca, certa vez interrogado por ele sobre como governar, disse que seria adequado governar como um Deus. Nero nunca perdeu este “conselho” de vista. Foi até mais adiante: chegou a afirmar em alto e bom tom que “os deuses é que precisavam de sua proteção”.
Seria cômico, não fossem fatos tão desastrosos, observar as peripécias do romano que se considerava um “dom divino”. Certa vez resolveu que deveria expressar sua “vocação” artística cantando, o que não tardou em providenciar, malgrado os conselhos contrários de Sêneca, um dentre os poucos que ousava objetar algo às exóticas vontades de Nero.
O ultraje ao qual estava submetido um romano por ver seu imperador cantando, seria equivalente ao que um inglês estaria submetido se tivesse que presenciar a rainha Elizabeth fazendo strip-tease.
Quando o imperador terminou sua “esplêndida”, “impecável, “perfeita” apresentação (seu papel de ridículo, bem baixinho aqui entre nós plebeus), foi recebido por sua mulher Popéia (ele já havia ordenado a morte da anterior) que dizia estar orgulhosa dele, e mesmo o “pequeno” erro que ele cometeu (deixou cair um objeto que segurava durante a apresentação), não tinha comprometido em nada o espetáculo, pois foi tão rapidamente corrigido que “ninguém” viu. Popéia... tarde demais era pra você corrigir o erro que acabava de cometer. Foi um erro que custou não só a sua vida, mas também a do bebê que estava ainda em seu ventre, ambas tirada a pontapés do imperador frustrado por acabar de se convencer que fracassou...
Isso só para falar de um punhado de loucuras do personagem histórico que pronunciou antes de morrer: “que grande artista o mundo vai perder!”
Como na época dos césares, vemos atualmente no Brasil comportamentos também insanos. Mensalão, sanguessugas, dólar na cueca são apenas alguns dos exemplos mais populares, digamos assim. Os abusos antes ordenados abertamente pelo imperador, realizam-se hoje camuflados na capa duma sistemática organização política. Se a figura do Nero enquanto indivíduo não é mais tão nítida, é porque ela deu lugar a um bando unido e fortalecido sob o pretexto da representação. Este latente modus operandi do antigo tirano, não é mais responsável pela derrocada de um ou dois de seus opositores, mas de quantos forem necessários para sua manutenção.

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