sábado, 24 de março de 2007

Debord e o autismo social



José Antonio

Em a “Sociedade do Espetáculo”, Guy Debord faz uma crítica generalizada à moderna sociedade do consumo, ao mesmo tempo em que manifesta algo do pensamento sócio-político do Internacional Situacionista (IS), movimento de considerável amplitude na década de 1960. Em seu tom profético, Debord desenvolve ao longo do livro, 221 teses acerca das relações entre indivíduos e classes na sociedade regida por ideologias “perversas”, bem como acerca da composição do “espetáculo”. Devido à extensão proporcionada pelas mesmas, me limitarei a fazer uma breve análise de algumas teses da obra que remetem ao título do artigo.

Abrindo o capítulo IX, encontramos uma citação extraída de “Fenomenologia do Espírito”, Hegel, que diz o seguinte:

“A consciência de si é em si e para si quando e porque ela é em si e para si para uma outra consciência de si; quer dizer que ela não é senão enquanto ser reconhecida.”

Para um leitor atento, é bem notável a intenção do autor quando usa a frase supracitada como epígrafe. É possível prever onde ele quer chegar dizendo que não existe auto-consciência se ela não for reconhecida por outra auto-consciência. Mas guarde bem o seu sentido, pois mais a frente o retomarei. Por ora vamos só começar pelo começo, como se diz.

Na sua 212ª tese, Guy Debord afirma que a ideologia é a base do pensamento social, e, sendo esta base “a consciência deformada das realidades”, ela está a exercer uma ação igualmente deformada na sociedade que a sustenta (ele se refere a uma ideologia a serviço da produção capitalista). Observe a pretensa generalização para o tal estágio de “deformação” social, afinal, foi dito que o problema vem da base do pensamento das pessoas.

Seguindo, nos deparamos uma vez mais com a noção de espetáculo, agora vislumbrado como “a ideologia por excelência”, na medida em que alude ao fetichismo da mercadoria, no sentido de Marx (fetichismo porque, segundo o barbudo, a mercadoria esconde uma constante luta de classes). Este espetáculo que é proposto, possui um sentido bem amplo, daí a dificuldade em defini-lo. Contudo, podemos encontrar no livro sucessivas sinalizações para o que ele vem a ser propriamente. Pode-se constatar, por exemplo, que ele é muito mais que as imagens geradas pela “indústria cultural” para sugerir ideais nas pessoas (o ideal do poder, da posse de bens matérias, do relacionamento perfeito etc.). Neste caso, as imagens surgem apenas como intermédio de uma “relação social entre pessoas”, vide a 4ª tese.

O espetáculo, também pode ser entendida, segundo Debord, como um projeto capitalista e simultaneamente uma conseqüência deste modo de produção. A sociedade que o hospeda só gera uma necessidade: a do dinheiro, pois que seu objetivo é criar uma espécie de consciência espectadora e consumista em seus indivíduos que passivamente presenciam o espetáculo como que hipnotizados.

A materialização do ideal é possível graças a arranjos de signos e sinais que dão “vida” ao abstrato uma vez que entram em contato com as pessoas em estado de alienação através do espetáculo. Desta forma, a idealização da matéria se estende à materialização da idéia. A este mundo do ideal materializado, o autor prefere se referir como “negação da vida real”, ao invés de nova realidade, como prefiro dizer, sem considerar, é claro, as generalizações e os exageros anti-capitalistas quase patológicos de Guy Debord.

Agora, já com algumas idéias em mente sobre o espetáculo e sobre a materialização da ideologia, podemos finalmente retomar à parte em que Hegel se refere à consciência de si. Sem alterar em nada o seu sentido original, vamos reescrevê-la com outras palavras:

“A auto-consciência existe em si e para si quando e porque ela existe em si e para si para uma outra auto-consciência; ou seja, ela não existe enquanto não for reconhecida.”

Como vimos, a “hipnose” pretendida pelo espetáculo, tem efeito massificante. A 218ª tese é arrematada se referindo a um “autismo generalizado”. A conclusão nos elucida este aspecto, e a deixo nas palavras do próprio autor:

“Numa sociedade em que ninguém pode mais ser reconhecido pelos outros, cada indivíduo torna-se incapaz de reconhecer sua própria realidade. A ideologia está em casa; a separação construiu o seu mundo.”

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