sábado, 26 de maio de 2007

O espetáculo nosso de cada dia



José Antonio

A muitos dos ambientes que freqüentamos e pessoas com as quais nos relacionamos, estamos ligados através de "espetáculos" concebidos em diferentes níveis. Quando assistimos a um filme, a um show ou até mesmo a uma palestra ou aula, esperamos pelo "espetáculo", que se tornou quase que uma necessidade orgânica nossa. Estamos sempre à espera de algo que desperte em nós sensações que variam desde a empolgação, passando pelo riso, até a comoção. A hora do Fantástico é parada obrigatória na rotina de muitos brasileiros: aí emergem casos de heroísmo, de viagens épicas, de sucessos e decepções, de luta e sobrevivência entre incontáveis outros. Tem também os jornais e revistas semanais de grande circulação, nos quais a corrupção política e as estatísticas negativas constituem a própria matéria do espetáculo que propõem.

Em meio a tantas informações sobre tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, tendemos a nos tornar insensíveis à análise qualitativa de fatos isoladamente, voltando as nossas atenções à quantidade de informações. O jornal da manhã busca fazer um apanhado geral do que se passa na sociedade, contudo sempre há aquela matéria que mexe com os leitores de algum modo, gerando entre eles comentários do tipo "ah, você viu quanto dinheiro aquele deputado roubou" ou "nossa! como essa família conseguiu passar o dia assim?" . É aí que podemos perceber algo sobre a função e a atuação do "espetáculo" na sociedade: ele está tentando chamar a nossa atenção, levar-nos ao seu objetivo final que é a aquisição ou participação no meio que o veicula. Semelhante raciocínio é válido para outras formas de "espetáculo".

Outro fato interessante é observar como a expectativa que temos para ver o diferente leva-nos a conseqüências que se pararmos para avaliar não iremos compreender exatamente. Quando se noticia vagamente um acidente envolvendo um famoso, por exemplo, geralmente pensamos logo no fato como uma situação grave, associando-a a acontecimentos negativos. O problema é que, quase sem perceber, começamos a crer naquilo que supomos, no caso, a gravidade do acidente, e a esperar que assim tenha ocorrido de fato. Quando vamos finalmente à notícia propriamente dita e verificamos algo como "foi apenas um susto devido a um pequeno encosto na traseira de outro carro e todos estam bem", ficamos, de certo modo, transtornados. O "espetáculo" exibiu seu cartaz, eis que quando entramos em sua sala, nos deparamos com o vazio.

É importante observar que não se pode simplesmente ignorar o vício do "espetáculo", digamos, que consome-nos a cada dia. É possível, a partir da constatação de sua existência, criar formas de conjugá-lo a atividades imprescindíveis de nosso dia-a-dia. Assim, por exemplo, um professor pode dinamizar suas aulas contando experiências suas ou situações com as quais o público, seus alunos, identifiquem-se ou sintam-se "tocados" de algum modo. Um palestrante que convoca jovens para ouvi-lo, deve compreender que a aplicação de momentos de "espetáculo" na medida certa é fundamental para o bom fluxo de sua palestra.

Também não se pode sair afirmando que a presença do "espetáculo" com o sentido que exponho, tenha estritamente a função de tornar cada vez mais passivo o espectador nas situações onde se apresenta caracterizando uma relação unilateral entre os meios que trazem o "espetáculo" e o público. É possível gerar nas pessoas, muito mais prontas a ouvir que a fazer, interesse no concreto, na construção de circunstâncias a partir da correta dosagem do espetáculo. Não esqueçamos que este último serve muito bem como forma de reavivar a atenção e o interesse alheio, é só uma questão de percepção e medida.

Pelo visto, espetáculos vão muito além de malabaristas ou mágicos fazendo truques com algumas cartas na manga...

quarta-feira, 11 de abril de 2007

De Spiderman a Lost: o ônus do herói moralista



José Antonio


Muito provavelmente você já ficou irritado quando assistia àquele filme ou série no qual o protagonista enfrenta um vilão, em lutas que chegam a ser quase épicas, e no final, após derrotá-lo parcialmente, se omite a dar o golpe derradeiro, que colocaria um ponto final na história do seu adversário. Produções como Batman, tanto a série como alguns filmes, apresentaram tal característica. Os mais jovens também puderam percebê-la por diversas vezes em desenhos como “Dragon Ball Z”, no qual um típico exemplo é a saga onde o personagem Goku, depois de suar muito (e sangrar muito também) para vencer seu irmão e arque inimigo Vegeeta, o poupa a vida, com todos os riscos que essa “nobre” atitude representaria. Tem ainda uma infinidade de filmes em que o cownboy se recusa a tirar a vida do inimigo já derrotado, debilitado ou em situação desfavorável.

É claro que no caso das séries ou filmes com continuação, a eliminação do vilão em um ponto mediano do desenrolar da trama, poderia representar um grave empecilho ao fluxo da história. Entretanto, deve-se destacar que nem sempre certos carrascos são tão determinantes para a continuidade da história. Nos casos anteriores, verificamos por parte dos personagens do “lado do bem”, uma constante preocupação em não ferir valores morais como “não matarás”. Preocupação que só se esvai quando esses personagens têm em oposição criaturas não humanas como vampiros, andróides, monstros etc., para as quais os eufemismos moralistas fazem-se desnecessários (o caso do Blade, caçador de vampiros). É exatamente em torno da preocupação moral exibida por personagens de algumas histórias que centrarei a análise que ora proponho.

Primeiramente, podemos notar que há um problema nítido com essa complacente atitude do “herói” tomada frente ao inimigo impotente. Ela é contraditória com todo o desenrolar das histórias do gênero, que normalmente sugerem ao espectador um desejo de fazer justiça (o “herói” funciona, digamos, como um avatar – lado virtual – que vive as aventuras que a corriqueira vida do espectador não pode oferecer). Assim muitos se decepcionam ao ver o fim dessas histórias. Como sabemos, os produtores não podem se dar ao luxo de desagradar tanto ao seu público. Então como podem resolver essa contradição?

Nesse sentido, filmes como Spiderman (Homem-Aranha) solucionam parcialmente o problema da história que exige como desfecho a morte do inimigo número 1 de um herói moralista. No momento em que Peter Parker (o Homem-Aranha) tem seu encontro final com Norman Osborn (o Duende verde) no primeiro filme, o fim trágico deste último é provocado acidentalmente por ele mesmo quando tenta ferir fatalmente o Homem-Aranha pelas costas. Desse modo o diretor do filme evita qualquer ligação de seu protagonista com a figura de um assassino. O mesmo já havia ocorrido um pouco antes no mesmo filme: o ladrão que matou o personagem Ben (tio do Peter), quando se vê encurralado pelo Homem-Aranha num prédio, tropeça acidentalmente e cai lá de cima, sem precisar mais uma vez que o protagonista fira diretamente o princípio do não matarás.

Um aparente exemplo de ruptura com esse já batido paradigma do personagem central moralista, ou do conjunto de personagens centrais, se dá na famosa série Lost. Em especial na 2ª e 3ª temporada, observamos episódios interessantes. Na 3ª temporada, o padre Eko, num flashback de sua vida antes da ilha, revelou subitamente seu lado facínora em plena igreja quando membros de uma facção criminosa o ameaçaram (se não me engano ele decepou o braço de um, cortou o pescoço do outro e furou o terceiro). Depois afirmou que já havia matado um homem para salvar o seu irmão e não se arrependia de nada, pois que encontrara justificativa maior para todos os crimes. Jack Shepard foi bastante ousado, mostrando pra que serve o Juramento de Hipócrates. O doutor deu a palavra de que operaria Benjamin Linus (o manda chuva dos “outros”), mas no meio da cirurgia provocou uma complicação que mataria o cara em uma hora caso não fosse revertida. Detalhe, para reverter a complicação, Shepard exigiu que os amigos de Benjamin obedecessem imediatamente suas ordens. O personagem Michael, na 2ª temporada, não hesitou muito antes de "meter bala" em duas de suas companheiras de ilha, já que essa era uma condição para ele poder ter seu filho Walt de volta, este capturado pelos “outros”. Não que isso seja uma regra geral na ilha, mas é um ponto crucial.

Deste modo, vemos personagens centrais da trama praticando atitudes que chamam bastante a atenção do espectador, pois surpreendem-nos no ponto em que outras produções haviam erguido fronteiras para o aceitável.

Comportamentos como esses deixam o público de Lost cada vez mais fã da série, não pelo conteúdo deles em si, mas pelo fator surpresa que proporcionam. Ponto para os produtores, pois bem captaram e trabalharam em cima de uma das muitas áreas da consciência espectadora de seu público.

domingo, 1 de abril de 2007

À la Roma



José Antonio

Imagine que você é um pobre vendedor ambulante situado no meio de um grande império do séc. I d.C. É noite e você está exausto depois de tanto trabalhar. Olhando ao seu redor, nada de extraordinário vê, apenas três homens vindo em sua direção. Trata-se de alguém de traje vermelho que deve ter seus trinta anos e está acompanhado de um senhor com idade um pouco avançada e um outro homem com aparência de soldado. O homem de vermelho aproxima-se de você com um olhar penetrante e diz-lhe que está a fim de comer dez uvas verdes. Esforçando-se inutilmente para não parecer ignorante, você responde que cada mercadoria sua tem um preço, e só restam nove uvas. O homem fala, como um ultimato, que quer dez uvas verdes. O tom arrogante dele o deixa muito irritado, mais ainda por não compreender por que aquele sujeito aparece àquela hora da noite fazendo exigências. Finalmente você diz que não pode fazer nada, pois só tem nove uvas. Ele lança um olhar determinante para o homem ao seu lado que retorna: que fim devo dar a este verme meu imperador? E só de ouvir a palavra imperador, você começa a suar frio e tremer dos pés a cabeça numa situação de desespero total, até que rapidamente desmaia. Pelo menos assim, você foi poupado de sentir o cara lhe espancando, até a morte.

A situação que acabei de narrar, pode parecer absurda, mas seria perfeitamente plausível se tivesse se referindo a uma noite na antiga Roma na qual Nero, Sêneca e um soldado passeiam nas ruas. Não só seria plausível como provavelmente representaria um entre incontáveis outros abusos cometidos pelo imperador. Para se ter uma idéia, tamanha era sua impopularidade que, quando Roma foi arrasada por um incêndio em 64 d.C., a responsabilidade foi automaticamente atribuída a Nero, que por sua vez a atribuiu aos cristãos, aumentando consideravelmente as hostilidades para com estes. Por mais incrível que pareça, após contemplar a “beleza das chamas”, como se referiu, Nero encarou a situação caótica da cidade destruída como uma grata oportunidade de reerguer um império verdadeiramente forte, espirituoso, onde suas pretensões artísticas estariam em evidência.

Seu fiel conselheiro Sêneca, certa vez interrogado por ele sobre como governar, disse que seria adequado governar como um Deus. Nero nunca perdeu este “conselho” de vista. Foi até mais adiante: chegou a afirmar em alto e bom tom que “os deuses é que precisavam de sua proteção”.

Seria cômico, não fossem fatos tão desastrosos, observar as peripécias do romano que se considerava um “dom divino”. Certa vez resolveu que deveria expressar sua “vocação” artística cantando, o que não tardou em providenciar, malgrado os conselhos contrários de Sêneca, um dentre os poucos que ousava objetar algo às exóticas vontades de Nero.

O ultraje ao qual estava submetido um romano por ver seu imperador cantando, seria equivalente ao que um inglês estaria submetido se tivesse que presenciar a rainha Elizabeth fazendo strip-tease.

Quando o imperador terminou sua “esplêndida”, “impecável, “perfeita” apresentação (seu papel de ridículo, bem baixinho aqui entre nós plebeus), foi recebido por sua mulher Popéia (ele já havia ordenado a morte da anterior) que dizia estar orgulhosa dele, e mesmo o “pequeno” erro que ele cometeu (deixou cair um objeto que segurava durante a apresentação), não tinha comprometido em nada o espetáculo, pois foi tão rapidamente corrigido que “ninguém” viu. Popéia... tarde demais era pra você corrigir o erro que acabava de cometer. Foi um erro que custou não só a sua vida, mas também a do bebê que estava ainda em seu ventre, ambas tirada a pontapés do imperador frustrado por acabar de se convencer que fracassou...

Isso só para falar de um punhado de loucuras do personagem histórico que pronunciou antes de morrer: “que grande artista o mundo vai perder!”

Como na época dos césares, vemos atualmente no Brasil comportamentos também insanos. Mensalão, sanguessugas, dólar na cueca são apenas alguns dos exemplos mais populares, digamos assim. Os abusos antes ordenados abertamente pelo imperador, realizam-se hoje camuflados na capa duma sistemática organização política. Se a figura do Nero enquanto indivíduo não é mais tão nítida, é porque ela deu lugar a um bando unido e fortalecido sob o pretexto da representação. Este latente modus operandi do antigo tirano, não é mais responsável pela derrocada de um ou dois de seus opositores, mas de quantos forem necessários para sua manutenção.

sábado, 24 de março de 2007

Debord e o autismo social



José Antonio

Em a “Sociedade do Espetáculo”, Guy Debord faz uma crítica generalizada à moderna sociedade do consumo, ao mesmo tempo em que manifesta algo do pensamento sócio-político do Internacional Situacionista (IS), movimento de considerável amplitude na década de 1960. Em seu tom profético, Debord desenvolve ao longo do livro, 221 teses acerca das relações entre indivíduos e classes na sociedade regida por ideologias “perversas”, bem como acerca da composição do “espetáculo”. Devido à extensão proporcionada pelas mesmas, me limitarei a fazer uma breve análise de algumas teses da obra que remetem ao título do artigo.

Abrindo o capítulo IX, encontramos uma citação extraída de “Fenomenologia do Espírito”, Hegel, que diz o seguinte:

“A consciência de si é em si e para si quando e porque ela é em si e para si para uma outra consciência de si; quer dizer que ela não é senão enquanto ser reconhecida.”

Para um leitor atento, é bem notável a intenção do autor quando usa a frase supracitada como epígrafe. É possível prever onde ele quer chegar dizendo que não existe auto-consciência se ela não for reconhecida por outra auto-consciência. Mas guarde bem o seu sentido, pois mais a frente o retomarei. Por ora vamos só começar pelo começo, como se diz.

Na sua 212ª tese, Guy Debord afirma que a ideologia é a base do pensamento social, e, sendo esta base “a consciência deformada das realidades”, ela está a exercer uma ação igualmente deformada na sociedade que a sustenta (ele se refere a uma ideologia a serviço da produção capitalista). Observe a pretensa generalização para o tal estágio de “deformação” social, afinal, foi dito que o problema vem da base do pensamento das pessoas.

Seguindo, nos deparamos uma vez mais com a noção de espetáculo, agora vislumbrado como “a ideologia por excelência”, na medida em que alude ao fetichismo da mercadoria, no sentido de Marx (fetichismo porque, segundo o barbudo, a mercadoria esconde uma constante luta de classes). Este espetáculo que é proposto, possui um sentido bem amplo, daí a dificuldade em defini-lo. Contudo, podemos encontrar no livro sucessivas sinalizações para o que ele vem a ser propriamente. Pode-se constatar, por exemplo, que ele é muito mais que as imagens geradas pela “indústria cultural” para sugerir ideais nas pessoas (o ideal do poder, da posse de bens matérias, do relacionamento perfeito etc.). Neste caso, as imagens surgem apenas como intermédio de uma “relação social entre pessoas”, vide a 4ª tese.

O espetáculo, também pode ser entendida, segundo Debord, como um projeto capitalista e simultaneamente uma conseqüência deste modo de produção. A sociedade que o hospeda só gera uma necessidade: a do dinheiro, pois que seu objetivo é criar uma espécie de consciência espectadora e consumista em seus indivíduos que passivamente presenciam o espetáculo como que hipnotizados.

A materialização do ideal é possível graças a arranjos de signos e sinais que dão “vida” ao abstrato uma vez que entram em contato com as pessoas em estado de alienação através do espetáculo. Desta forma, a idealização da matéria se estende à materialização da idéia. A este mundo do ideal materializado, o autor prefere se referir como “negação da vida real”, ao invés de nova realidade, como prefiro dizer, sem considerar, é claro, as generalizações e os exageros anti-capitalistas quase patológicos de Guy Debord.

Agora, já com algumas idéias em mente sobre o espetáculo e sobre a materialização da ideologia, podemos finalmente retomar à parte em que Hegel se refere à consciência de si. Sem alterar em nada o seu sentido original, vamos reescrevê-la com outras palavras:

“A auto-consciência existe em si e para si quando e porque ela existe em si e para si para uma outra auto-consciência; ou seja, ela não existe enquanto não for reconhecida.”

Como vimos, a “hipnose” pretendida pelo espetáculo, tem efeito massificante. A 218ª tese é arrematada se referindo a um “autismo generalizado”. A conclusão nos elucida este aspecto, e a deixo nas palavras do próprio autor:

“Numa sociedade em que ninguém pode mais ser reconhecido pelos outros, cada indivíduo torna-se incapaz de reconhecer sua própria realidade. A ideologia está em casa; a separação construiu o seu mundo.”