
José Antonio
Muito provavelmente você já ficou irritado quando assistia àquele filme ou série no qual o protagonista enfrenta um vilão, em lutas que chegam a ser quase épicas, e no final, após derrotá-lo parcialmente, se omite a dar o golpe derradeiro, que colocaria um ponto final na história do seu adversário. Produções como Batman, tanto a série como alguns filmes, apresentaram tal característica. Os mais jovens também puderam percebê-la por diversas vezes em desenhos como “Dragon Ball Z”, no qual um típico exemplo é a saga onde o personagem Goku, depois de suar muito (e sangrar muito também) para vencer seu irmão e arque inimigo Vegeeta, o poupa a vida, com todos os riscos que essa “nobre” atitude representaria. Tem ainda uma infinidade de filmes em que o cownboy se recusa a tirar a vida do inimigo já derrotado, debilitado ou em situação desfavorável.
É claro que no caso das séries ou filmes com continuação, a eliminação do vilão em um ponto mediano do desenrolar da trama, poderia representar um grave empecilho ao fluxo da história. Entretanto, deve-se destacar que nem sempre certos carrascos são tão determinantes para a continuidade da história. Nos casos anteriores, verificamos por parte dos personagens do “lado do bem”, uma constante preocupação em não ferir valores morais como “não matarás”. Preocupação que só se esvai quando esses personagens têm em oposição criaturas não humanas como vampiros, andróides, monstros etc., para as quais os eufemismos moralistas fazem-se desnecessários (o caso do Blade, caçador de vampiros). É exatamente em torno da preocupação moral exibida por personagens de algumas histórias que centrarei a análise que ora proponho.
Primeiramente, podemos notar que há um problema nítido com essa complacente atitude do “herói” tomada frente ao inimigo impotente. Ela é contraditória com todo o desenrolar das histórias do gênero, que normalmente sugerem ao espectador um desejo de fazer justiça (o “herói” funciona, digamos, como um avatar – lado virtual – que vive as aventuras que a corriqueira vida do espectador não pode oferecer). Assim muitos se decepcionam ao ver o fim dessas histórias. Como sabemos, os produtores não podem se dar ao luxo de desagradar tanto ao seu público. Então como podem resolver essa contradição?
Nesse sentido, filmes como Spiderman (Homem-Aranha) solucionam parcialmente o problema da história que exige como desfecho a morte do inimigo número 1 de um herói moralista. No momento em que Peter Parker (o Homem-Aranha) tem seu encontro final com Norman Osborn (o Duende verde) no primeiro filme, o fim trágico deste último é provocado acidentalmente por ele mesmo quando tenta ferir fatalmente o Homem-Aranha pelas costas. Desse modo o diretor do filme evita qualquer ligação de seu protagonista com a figura de um assassino. O mesmo já havia ocorrido um pouco antes no mesmo filme: o ladrão que matou o personagem Ben (tio do Peter), quando se vê encurralado pelo Homem-Aranha num prédio, tropeça acidentalmente e cai lá de cima, sem precisar mais uma vez que o protagonista fira diretamente o princípio do não matarás.
Um aparente exemplo de ruptura com esse já batido paradigma do personagem central moralista, ou do conjunto de personagens centrais, se dá na famosa série Lost. Em especial na 2ª e 3ª temporada, observamos episódios interessantes. Na 3ª temporada, o padre Eko, num flashback de sua vida antes da ilha, revelou subitamente seu lado facínora em plena igreja quando membros de uma facção criminosa o ameaçaram (se não me engano ele decepou o braço de um, cortou o pescoço do outro e furou o terceiro). Depois afirmou que já havia matado um homem para salvar o seu irmão e não se arrependia de nada, pois que encontrara justificativa maior para todos os crimes. Jack Shepard foi bastante ousado, mostrando pra que serve o Juramento de Hipócrates. O doutor deu a palavra de que operaria Benjamin Linus (o manda chuva dos “outros”), mas no meio da cirurgia provocou uma complicação que mataria o cara em uma hora caso não fosse revertida. Detalhe, para reverter a complicação, Shepard exigiu que os amigos de Benjamin obedecessem imediatamente suas ordens. O personagem Michael, na 2ª temporada, não hesitou muito antes de "meter bala" em duas de suas companheiras de ilha, já que essa era uma condição para ele poder ter seu filho Walt de volta, este capturado pelos “outros”. Não que isso seja uma regra geral na ilha, mas é um ponto crucial.
Deste modo, vemos personagens centrais da trama praticando atitudes que chamam bastante a atenção do espectador, pois surpreendem-nos no ponto em que outras produções haviam erguido fronteiras para o aceitável.
Comportamentos como esses deixam o público de Lost cada vez mais fã da série, não pelo conteúdo deles em si, mas pelo fator surpresa que proporcionam. Ponto para os produtores, pois bem captaram e trabalharam em cima de uma das muitas áreas da consciência espectadora de seu público.

