
José Antonio
A muitos dos ambientes que freqüentamos e pessoas com as quais nos relacionamos, estamos ligados através de "espetáculos" concebidos em diferentes níveis. Quando assistimos a um filme, a um show ou até mesmo a uma palestra ou aula, esperamos pelo "espetáculo", que se tornou quase que uma necessidade orgânica nossa. Estamos sempre à espera de algo que desperte em nós sensações que variam desde a empolgação, passando pelo riso, até a comoção. A hora do Fantástico é parada obrigatória na rotina de muitos brasileiros: aí emergem casos de heroísmo, de viagens épicas, de sucessos e decepções, de luta e sobrevivência entre incontáveis outros. Tem também os jornais e revistas semanais de grande circulação, nos quais a corrupção política e as estatísticas negativas constituem a própria matéria do espetáculo que propõem.
Em meio a tantas informações sobre tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, tendemos a nos tornar insensíveis à análise qualitativa de fatos isoladamente, voltando as nossas atenções à quantidade de informações. O jornal da manhã busca fazer um apanhado geral do que se passa na sociedade, contudo sempre há aquela matéria que mexe com os leitores de algum modo, gerando entre eles comentários do tipo "ah, você viu quanto dinheiro aquele deputado roubou" ou "nossa! como essa família conseguiu passar o dia assim?" . É aí que podemos perceber algo sobre a função e a atuação do "espetáculo" na sociedade: ele está tentando chamar a nossa atenção, levar-nos ao seu objetivo final que é a aquisição ou participação no meio que o veicula. Semelhante raciocínio é válido para outras formas de "espetáculo".
Outro fato interessante é observar como a expectativa que temos para ver o diferente leva-nos a conseqüências que se pararmos para avaliar não iremos compreender exatamente. Quando se noticia vagamente um acidente envolvendo um famoso, por exemplo, geralmente pensamos logo no fato como uma situação grave, associando-a a acontecimentos negativos. O problema é que, quase sem perceber, começamos a crer naquilo que supomos, no caso, a gravidade do acidente, e a esperar que assim tenha ocorrido de fato. Quando vamos finalmente à notícia propriamente dita e verificamos algo como "foi apenas um susto devido a um pequeno encosto na traseira de outro carro e todos estam bem", ficamos, de certo modo, transtornados. O "espetáculo" exibiu seu cartaz, eis que quando entramos em sua sala, nos deparamos com o vazio.
É importante observar que não se pode simplesmente ignorar o vício do "espetáculo", digamos, que consome-nos a cada dia. É possível, a partir da constatação de sua existência, criar formas de conjugá-lo a atividades imprescindíveis de nosso dia-a-dia. Assim, por exemplo, um professor pode dinamizar suas aulas contando experiências suas ou situações com as quais o público, seus alunos, identifiquem-se ou sintam-se "tocados" de algum modo. Um palestrante que convoca jovens para ouvi-lo, deve compreender que a aplicação de momentos de "espetáculo" na medida certa é fundamental para o bom fluxo de sua palestra.
Também não se pode sair afirmando que a presença do "espetáculo" com o sentido que exponho, tenha estritamente a função de tornar cada vez mais passivo o espectador nas situações onde se apresenta caracterizando uma relação unilateral entre os meios que trazem o "espetáculo" e o público. É possível gerar nas pessoas, muito mais prontas a ouvir que a fazer, interesse no concreto, na construção de circunstâncias a partir da correta dosagem do espetáculo. Não esqueçamos que este último serve muito bem como forma de reavivar a atenção e o interesse alheio, é só uma questão de percepção e medida.
Pelo visto, espetáculos vão muito além de malabaristas ou mágicos fazendo truques com algumas cartas na manga...
